O DNA do Vinho

A cada resultado de um exame de DNA de uvas viníferas, o mundo do vinho entra em polvorosa. A descoberta de que a Zinfandel – tão alardeada pelos produtores de vinho dos EUA como uma uva genuinamente estadunidense – é na verdade a Primitivo italiana deixou os americanos decepcionados. Muitos ainda se recusam a aceitar o resultado do teste.

Outro caso que decepcionou muitos enólogos, principalmente na França, foi o exame da popular Cabernet Sauvignon. Uma das uvas mais cultivadas no mundo e responsável pela maioria dos grandes vinhos de Bordeaux, a Cabernet Sauvignon nada mais é que um cruzamento da Cabernet Franc com a Sauvignon Blanc. Esperava-se que o exame fosse revelar uma origem mais surpreendente ou nobre para a uva, mas este não foi o caso.

O mapeamento genético também serviu para resolver de uma vez por todas a discussão sobre a Alvarinho. Especulava-se que a mais famosa das uvas brancas portuguesas fosse apenas a Riesling com outro nome. Para alegria e orgulho dos portugueses, o teste revelou que a Alvarinho é uma autêntica uva portuguesa.

Para a maioria das pessoas que trabalha com vinho ou é apaixonada pela bebida, esses resultados podem não ser lá muito inesperados. Mas, houveram sim algumas surpresas. Foi revelado, por exemplo, que a Syrah é descendente da Pinot Noir – algo que ninguém imaginava, já que são tão diferentes nos estilos de vinho que produzem.

Outra grande surpresa: a Torrontés plantada na Argentina é uma uva autóctone local e não a uva branca espanhola de mesmo nome, como se acreditava. A Torrontés argentina é um cruzamento da Moscatel de Alexandria com a uva País e que provavelmente aconteceu por acaso.

Todo país produtor de vinhos do Novo Mundo sonha em ter uvas autóctones – aquelas que são originárias do próprio país – dando assim mais identidade e publicidade ao vinho local. Os países do Velho Mundo têm centenas de uvas autóctones, das quais se orgulham e que usam para produzir grandes vinhos, como a Touriga Nacional em Portugal, por exemplo, ou a Sangiovese na Itália. Os EUA depositou suas fichas na Zinfandel, porém se decepcionou com o resultado do DNA. Já a África do Sul resolveu logo criar a sua própria uva em laboratório e, cruzando a Pinot Noir com a Cinsault, desenvolveu a Pinotage. Mas, mais sorte do que todos esses teve a Argentina, que graças à moda do teste de DNA no mundo do vinho, descobriu que tem uma uva só sua.

Que venham mais testes! E seguimos degustando enquanto aguardamos os próximos resultados.

Sobre a nossa Convidada:
Letticiae Bittencourt é Sommelière e responsável pelo site www.todovinho.com.br. Aproveite para seguí-la no Instagram também: @todovinho.


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