Os Vinhos Naturebas

O termo “Natureba” surgiu na década de sessenta quando os jovens se fanatizaram pelo surf e pela vida mais natural. Me lembro que comíamos muito fibrax, leite de soja, granolas e coisas assim e íamos para o mar passar o dia inteiro... Nessa época tudo que fosse mais voltado ao natural virou: Natureba.

Minha nora, a Lis Cereja cunhou esse termo quando realizou a primeira feira de vinhos “Naturebas” da Enoteca Saint Vin Saint, referencia no assunto. O termo refere-se aos vinhos Orgânicos, Biodinâmicos e Naturais.

Eu realmente sou fã desses vinhos e explicarei o por que:
 
Em primeiro lugar vem a questão da sinceridade. Eu tenho enorme problema com a sinceridade e muitas vezes sou indelicado ou inoportuno com palavras que simplesmente pulam pra fora da minha boca antes mesmo que o cérebro censure… Eu chamo isso de autenticidade. Há algo em comum nisso com os vinhos naturebas…

No Mundo há um número impreciso de vinhos que deve beirar os 2 milhões de rótulos. Ninguém sabe dizer isso ao certo e esse meu chute vem da simples conta de 200 mil vinícolas (outro número que ninguém tem), multiplicado por dez vinhos diferentes em cada uma em média.

Muito bem, com 2 milhões de vinhos, dos quais devo conhecer uns 25 ou 30 mil, eu precisaria viver mais de 4 mil anos, degustando 1 vinho por dia para conhecer todos… não vai dar.
 
Dentro desse raciocínio, repetir um rótulo já é um pouco de desperdício de tempo, mas… impossível não repetir um Clos de La Coulée de Serrant por exemplo, um Pierre Frick ou um Barranco Oscuro, um Fvlvia PN para ficar apenas em quatro exemplos, entre uns mil que repito com prazer e assim vamos levando.

Então, priorizar se faz necessário e assim vem o outro ponto que é: O que eu gosto em um vinho? E eu gosto de Sinceridade num vinho, gosto quando a paisagem do lugar e a família do produtor vêm engarrafada. Não é lindo isso?

Em uma viagem que fiz a Alsace, por intervenção de Jorge Licki, conheci o Jean-Michel Deiss, filho do Marcel Deiss. Ele ao nos receber disse: "Vocês querem degustar casta ou terroir?…"

Demoramos a entender e ele explicou, se querem casta eu tenho vinhos das castas, se querem terroir eu tenho vinho de terroir e assim degustamos extraordinários vinhos de terroir como o L’Altemberg de Bergheim que ele não diz que castas tem, mas que reflete o que é aquele terroir.

Ele me disse emocionado que demorou 40 anos para ter a coragem de dizer isso com certeza. Supra Sumo! Show.
 
No Brasil por sorte temos pessoas abnegadas que buscam esse caminho: Carrau, Atelier Tormentas, Era dos Ventos, Dominio Vicari, Vinhas da Loucura, Vinha Unna, De Lucca, Entre Vilas, Vinhedo Serena, Casa Ágora, que são bastante recentes e já fazem maravilhas, mesmo engatinhando no propósito, se comparados ao produtores europeus.

Os vinhos do Atelier Tormentas, como o Fvlvia Pinot Noir, já cansou de vencer às cegas em grupos de degustadores experimentados, grande vinhos da Bourgogne como Gevrey Chambertin e Nuits Saint Georges e certa vez ficou à frente de um Echezeaux do DRC. Não é pouca coisa.

O vinho da Lizete Vicari (Domínio Vicari), arrancou elogios do Josko Gravner, o Pierre Breton provou o vinho da Marina Santos e disse ter confundido com o dele! E a convidou para vinificarem juntos. Por tanto minha opinião não é solitária nem tendenciosa.
 
E isso é exatamente o que hoje procuro em um vinho. Um vinho sincero, que reflita seu lugar e a cultura da família que está alí com sua energia trabalhando a terra. Eu quero o sotaque original. E então vem a questão das leveduras.
 
Leveduras são o DNA do local, são o sotaque da videira e qualquer coisa que interfira nisso está interferindo na sinceridade, na integridade, na autenticidade do vinho.
 
Acontece que para você conseguir fazer um vinho com qualidade usando as próprias leveduras nativas, precisa necessariamente de um vinhedo limpo, equilibrado, livre de produtos químicos que quebram  a harmonia das milhares de vidas envolvidas naquele ambiente.
 
E então essa questão me leva naturalmente aos vinhos biodinâmicos e naturais.

Os vinhos convencionais como se costuma dizer de vinhos que lançam mão da indústria química fazem o que? Eles buscam segurança e produtividade antes de tudo e por essa razão entram na ciranda dos produtos químicos, fertilizantes, pesticidas, fungicidas e herbicidas. É o negócio em primeiro lugar e a paixão vem depois.
 
Se ele quiser fermentar suas uvas com as leveduras que vieram em suas cascas sem interferência, terá como resultado ou a não fermentação ou a fermentação de todo o veneno que colocou lá e por tanto algo bem podre. Aliás podre duplamente pois é de caráter podre também pois está matando a terra dos nossos netos.
 
E aqui entra a questão do SO2, que é aplicado no momento da prensagem do vinho, para matar todas as leveduras que fariam a transformação da uva em vinho.

Mas isso não é problema, pois ele compra então leveduras sadias e turbinadas, com perfis de sua preferência e até aromatizadas se quiser, para que elas iniciem o processo de fermentação e arranquem daquele material o “sotaque” que não é dele, não é daquela uva. É uma questão mais comercial que de paixão.
 
Conheço inúmeros enólogos de casas famosíssimas de Bordeaux, de Champagne, na Toscana, de toda parte, que me disseram, Didú, claro que gostaria de ter um vinho de leveduras selvagens, mas eu preciso dormir Didú… o patrão quer que eu entregue seus milhares de litros com o padrão de qualidade que o mercado conhece.
 
Terroir? Infelizmente não. Não dalí ao menos. Paisagem engarrafada? Paisagem dalí certamente não… Sotaque? Claro que não. Vinho gostoso? Sim, por que não? Equilibrado? Se é que isso ainda seja notório? Sim. Sincero? Não. Com Alma? Lamentavelmente não. 
 
Eu não sou radical, provo de tudo, até por que escrevo de vinhos para um público grande e em diversos meios, gente até que nem sabe o que é biodinâmico.

Degusto de tudo e não tenho preconceitos. Prefiro os Naturebas pelo exposto acima e pela minha experiência sobre esses vinhos que além do que já disse me parecem mais elegantes, mais sutís, mais delicados, mais frescos, com mais tipicidade que os vinhos convencionais.
 
Mas tenho absoluta dimensão de meu trabalho e sei da repercussão que pode causar, e meu trabalho antes de minhas preferências é para o Vinho, basta acompanhar o que escrevo e comprovar.
 
Agora, percebo duas coisas desagradáveis hoje em dia nesse tema. Primeiro o modismo. O modismo é algo insuportável e que resvala naquela coisa da personalidade.

O brasileiro é muito afeito a modismos, e hoje anda meio de moda o tema dos Naturebas. E o que acontece é que pessoas que nem gostam começam a elogiar.

Basta ter a chancela que as pessoas consomem, elogiam, divulgam e assim por estar na moda não falam de outra coisa.
 
E há também produtores que embarcam no discurso dos naturebas sem nada ter de natureba. E todas essas coisas normais decorrentes da falta de personalidade e eventualmente de caráter, apenas para ir na onda.
 
O outro ponto é que no pequeno mundo das pessoas que se imaginam experts, descolados, bem informados sobre vinho, há uma divisão entre quem gosta dos Naturebas e quem não gosta. 
 
Difícil encontrar alguém que reconheça bons e maus vinhos nos dois mundos.
 
Um dos pontos básicos dessa polêmica é a questão do que se considera “defeito” em um vinho. 
 
Os vinhos naturebas tiram da zona de conforto os degustadores tradicionais que foram treinados a procurar defeitos em lugar de procurar qualidades nos vinhos. Normal, são os parâmetros usados para pontuar.
 
Porém o mundo do vinho cresce de maneira impressionante e novos terroirs são descobertos. Os critérios que definiram tipicidade não são universais e se um produtor faz um vinho sem interferência química ou de leveduras em um lugar desconhecido e esse vinho mostra algum traço dissonante com a performance original daquela casta, como questionar? O correto seria aprender com aquele vinho e não julga-lo e culpa-lo por ter outro sotaque.
 
Mas como não sou preciosista nem doutor em degustações, sou simplesmente apaixonado por vinhos, tenho um padrão bastante diferenciado dos meus colegas de degustação, pois acredito que são justamente os defeitos que dão charme ao vinho. 
 
Não é o esperado, mas o inesperado, não é a monótona perfeição mas o toque de Brett que me encanta.
 
Já tive discussão sobre isso com diversos colegas que como a maioria, degusta o vinho a procura de defeitos que resultarão em perda de pontos. 
 
Ora, para que isso meu Deus? Eu acho exatamente o contrário, enfio o nariz na taça a procura de uma surpresa que me agrade, bochecho o vinho tentando encontrar as pessoas que o fizeram, imaginar o lugar deles e ficar curioso por conhece-los. Isso me dá prazer. É buscar qualidades e não defeitos.

Orgânicos: Os orgânicos são vinhos produzidos a partir de uvas de vinhedos orgânicos, que não usam produtos da indústria química, seja fertilizantes seja herbicidas, ou fungicidas ou pesticidas.
 
Biodinâmicos: São vinhos produzidos a partir de vinhedos que usam conhecimentos ancestrais e antroposóficos de Rudolf Steiner. Busca o equilíbrio do local, que deve ser fechado, sem contato com o externo. Usa chás, infusões, ervas dinamizadas, respeita ciclo dos astros e planetas, usa preparados específicos para cada necessidade da vinha. Admite pequena quantidade de SO2 apenas no engarrafamento e muitos deles com enxofre natural. Há produtores que engarrafam parte de seu vinho com o SO2 e parte sem. 
 
Naturais: São vinhos que deveriam ser apenas de uvas de vinhedos orgânicos ou biodinâmicos, o que nem sempre acontece e não admitem o uso de SO2 o anidrido sulfuroso em nenhuma etapa, seja na colheita, seja na fermentação seja no engarrafamento. Isso faz grande diferença no resultado aromático e gustativo, seja de vinhos de vinhedos com ou sem uso de químicos.

Sobre o nosso Convidado:
Didú Russo é colunista de vinhos em diversas mídias e editor do site www.didu.com.br.


Comentários