Indústrias esperam por maior apoio em 2015
Setor se articula junto ao governo para pressionar por incentivos tributários como a extensão do crédito presumido

Indústria importante para o Rio Grande do Sul, que responde por 90% das uvas produzidas para processamento no País, o setor vitivinícola se articula para, em 2015, intensificar as suas já tradicionais reivindicações. Entre as entidades que representam as vinícolas, é consenso a necessidade de benefícios tributários para garantir a competitividade do vinho brasileiro frente aos importados, muitos deles isentos de impostos em seus países de origem, além do apoio, dentro do mercado nacional, à presença do vinho gaúcho em outras regiões.

Um dos projetos que deve ganhar corpo é o pleito, junto ao governo estadual, de extensão do crédito presumido para encobrir, também, as vendas a outros estados. Desde 2007, o Rio Grande do Sul já concede um benefício fiscal de 5% no ICMS para o vinho elaborado, engarrafado e comercializado dentro do Estado. “Estamos na ponta do País, longe do mercado consumidor do Sudeste. Temos como exemplo um projeto de Pernambuco, que entendeu essa questão da distância e concedeu incentivos fiscais aos seus produtores”, comenta o diretor executivo da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), Darci Dani.

A negociação, que segundo as entidades chegou a avançar com o governo estadual, foi paralisado pelo receio de retaliações dos outros estados em outros produtos. Com a troca de comando no Estado, porém, pretende-se retomar as conversas. “Alguns estados do Nordeste estão oferecendo 10 anos de isenção de ICMS, e já temos notícias de boas indústrias gaúchas saindo do Rio Grande do Sul”, alerta Gilberto Pedrucci, presidente do Sindicato da Indústria do Vinho do Rio Grande do Sul (Sindivinho), para quem a medida seria um incentivo ao engarrafamento da bebida no Rio Grande do Sul, gerando maior valor agregado e, consequentemente, pagamento de impostos.

O maior desafio da indústria, porém, segue sendo a disputa com o vinho importado. Além dos concorrentes sul-americanos, vindos de Argentina e Chile a um preço muito mais baixo do que o custo de produção no Brasil, segundo os empresários, graças a incentivos de seus respectivos governos, há, ainda, a forte entrada dos produtos europeus no País. 

De acordo com o presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Dirceu Scottá, tradicionais polos vinícolas, como a França, enfrentam queda no consumo interno de vinho, enxergando no Brasil um mercado para escoar seus excedentes, também com subsídios de seus governos.

Para enfrentar esse quadro, as entidades, capitaneadas pelo Ibravin, tentam, junto ao governo federal, benefícios no IPI, já concedidos a outros setores, com o argumento de que, com menor taxação, as vendas e a arrecadação aumentariam. A sinalização do governo, segundo Pedrucci, é de uma reclassificação dos produtos, hoje enquadrados em categorias de complexa definição, para um sistema de cobrança “ad valorem” (calculado diretamente sobre o valor de venda), menos burocrático.

A concorrência é muito mais forte no ramo dos vinhos finos, que teve queda de 2% nas vendas em 2014 e se mantém relativamente estável desde 2004, em torno de 20 milhões de litros comercializados por ano. A esperança das entidades para recuperar terreno é o esforço junto ao varejo para que os vinhos nacionais encontrem espaço nas gôndolas. 

“A dificuldade na venda não é do consumidor, mas de quem comercializa o produto. Dentro de um hipermercado, o espaço é muito maior para os importados do que para os nacionais”, argumenta Pedrucci. A iniciativa vem ao encontro do programa Qualidade na Taça, liderado pelo Ibravin, que capacitará mil restaurantes para que ofereçam os produtos brasileiros.

Com menos problemas de disputa com os importados, os produtos que atualmente garantem, segundo Pedrucci, o ínfimo crescimento de 0,08% em 2014 da indústria vinícola – espumantes (+9%) e suco de uva (+13%) — devem repetir seus bons desempenhos em 2015.

A previsão é mais alentadora para as cooperativas que, por terem acesso mais facilitado à sua base produtiva, composta por seus associados, já reconverteram parte de seus vinhedos para esse tipo de uvas, seguindo a tendência de mercado. “Temos a perspectiva de que, com isso, a produção de uva vinculada a cooperativas, que hoje é de 25% do total da Serra Gaúcha, chegue a 35% em cinco anos”, garante o presidente da Federação das Cooperativas Vinícolas (Fecovinho), Oscar Ló.


Modernização da base de produção promete melhorar qualidade das uvas

No campo da pesquisa, a expectativa das vinícolas é pelo início da implantação do projeto Modervitis, também fruto de pleito do Ibravin e de elaboração técnica da Embrapa. Parte do Plano Brasil Maior, o projeto terá como objetivo modernizar a produção de uvas. Nessa fase, que durará três anos, as vinícolas que aderirem ao Modervitis terão assistência técnica custeada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, acesso ao crédito e treinamento dos técnicos que acompanham os produtores, entre outras etapas.

“As indústrias, de modo geral, evoluíram muito tecnicamente nos últimos anos, a tecnologia industrial no Brasil e fora é praticamente a mesma. O que notamos é que ainda há espaço de avanço na qualidade da matéria-prima, e é aí que entra o Modervitis”, comenta Alexandre Hoffmann, chefe adjunto de transferência de tecnologia da Embrapa Uva e Vinho.

A previsão é de que o projeto atinja, em 2015, de 10 a 15 vinícolas, responsáveis por 800 famílias produtoras, que terão contratos de fornecimento com padrões de qualidade estabelecidos. Embora tenha um regulamento técnico, as medidas serão personalizadas a cada vinícola participante, com metas específicas para cada caso, segundo Hoffman.

  Os primeiros meses do ano também devem trazer ao Estado, ainda, a quinta Indicação Geográfica do setor. Além das quatro já existentes (Pinto Bandeira, Altos Montes, Região de Monte Belo e Vale dos Vinhedos), a expectativa da Associação Farroupilhense de Produtores de Vinhos, Espumantes, Sucos e Derivados (Afavin) é de que no primeiro semestre de 2015 o Instituto Nacional de Propriedade Industrial outorgue a Indicação de Procedência Farroupilha, cujo estudo, iniciado em 2005, foi protocolado no órgão no último mês de junho.

“Quando tivermos ele na mão, o maior benefício será a busca pelo mercado, pois teremos posse da informação de que o nosso moscato é único no mundo”, comenta o presidente da Afavin, Ricardo Chesini, sobre um estudo genético encomendado pela entidade que conclui que o chamado moscato comum, variedade mais produzida em Farroupilha, é único no mundo. 

Um sexto selo, a Indicação de Procedência Campanha, região que passa despontar na produção de vinhos finos, está em processo de pesquisa pela Embrapa e tem previsão de concessão em 2016, segundo Hoffman. Até lá, a intenção da instituição, que completa 40 anos no ano que vem, é de lançar outras duas variedades de cultivares, espécies de uva geneticamente construídas para melhor adaptação ao clima regional, que se unirão às 16 já desenvolvidas pela Embrapa até hoje.


Fonte: Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=182662)
Por Guilherme Daroit. Foto: Viajar é Tudo de Bom

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