Antes só vinho do que mal acompanhado

"Por mais raro que seja, ou mais antigo, só um vinho é deveras excelente: aquele que tu bebes, docemente, com teu mais velho e silencioso amigo".

Com estes versos, Mario Quintana resumiu o amor dele e de tanta gente pelo vinho. A bem da verdade, se os que amam o vinho e o amor vão para o inferno, o paraíso deve estar vazio. Disse outro poeta.

E quem resiste a uma taça? Sabemos que o tinto é a preferência mundial. Mas os tão esquecidos vinhos branco e rosé querem de volta seus lugares de destaque na adega.

O consumo de vinho no país aumentou – sendo o tinto o campeão de vendas – mas ainda é considerado um produto de luxo, associado ao frio ou datas comemorativas.

  O mercado é dividido em dois segmentos: vinho de mesa, que representa 69% do volume, e vinhos finos, que representam 31% do volume.

Especialistas alegam que, há duas décadas, o cenário era completamente diferente. O consumo de vinhos brancos girava em torno de 70%. Mas tudo começou a mudar após o chamado Paradoxo Francês, que comprovava os benefícios do vinho tinto para a saúde.

Mesmo nas regiões mais quentes, onde o vinho branco é uma ótima pedida – por ser servido gelado e ter menor teor alcoólico – ele ainda representa apenas 25% do volume consumido no Brasil.

Esta resistência ao vinho branco é maior quando comparada ao vinho rosé, que é preterido até mesmo por parte de enófilos consagrados. Há quem diga que é puro preconceito.

O Espaço da Mulher falou com o enólogo italiano Vincenzo Protti sobre vinhos branco e rosé:

  Qual a diferença entre vinho de mesa e vinho fino? 

Depende da classificação do país onde o vinho é produzido. Na maioria dos países, vinho de mesa é na base da pirâmide qualitativa dos vinhos finos. Então vinho de mesa é um vinho fino digamos básico.
 

  A que se deve esta resistência ao vinho branco e rosé?

A resistência nessa categoria de vinho existe realmente na America Latina. Na França, na Itália e outros países se tomam muitos vinhos rosés e brancos, especialmente no verão. Apesar que essas categorias sejam perfeitas para serem tomadas nos climas tropicais e quentes, ainda 75-80% do vinho tomado no Brasil é tinto.

Todavia a tendência está mudando, especialmente nas grandes cidades como São Paulo e Rio, estão se consumindo sempre mais rosés e brancos. Afinal, acho que o baixo consumo de brancos e rosés seja mais cultural, e esses vinhos serão  mais consumidos em todo o Brasil, conforme a evolução do paladar dos consumidores.
 

  Mesmo alguns enófilos tem resistência ao vinho rosé. O senhor acredita que há um certo preconceito?

Acho que tem um preconceito cultural. No Brasil a maioria dos consumidores acham que vinho Rosé seja somente para mulheres e que vinho branco nem seja vinho.
 

  Em quais situações estes dois vinhos são ideais e como servi-los?

Rosés e brancos, dependendo da tipologia (seco, doce, maturado no carvalho ou menos), podem ser consumidos em várias ocasiões, especialmente como aperitivo, antes das refeições, harmonizados com frutos do mar, lagosta, camarões, risotos de peixe e a maioria dos peixes, carnes brancas (frango, peru) e saladas variadas.


  Houve um aumento significativo no consumo de espumantes no verão e uma certa popularização. Por que o mesmo não aconteceu com o rosé e o branco?

Houve um aumento de consumo de espumantes, enquanto o Brasil está produzindo ótimas borbulhas no sul do país, com bom custo/benefício. É diferente dos vinhos tranquilos, setor no qual ainda os produtores brasileiros (excluindo alguma exceção), tem que trabalhar bastante para melhorar o nível qualitativo.
 

  Vinhos brancos acompanham carnes brancas e tintos, carnes vermelhas. Que verdade existe nesta afirmação? E o rosé, acompanha o quê?

Harmonização vinho e comida não tem regras, tem dicas. Uma das dicas que recomendo para iniciantes é sempre escolher a cor vinho em relação a cor da comida. Por exemplo, os rosés podem ser harmonizados com comida de cor rosa: camarões, lagosta, frutos do mar etc. Além dessa dica, essa categoria de vinho harmoniza bem com comida de outra cor, como saladas, azeitonas, bruschettas, entradas em geral.


  De que tipo de uvas são feitos os vinhos rosés e os brancos? Quais são as chamadas uvas brancas?

Podem ser utilizadas centenas de variedades de uvas para produzirem rosés e vinho branco. Os rosés mais nobres são produzidos com uvas tintas (Grenache, Sangiovese, Tempranillo etc.) e os vinhos brancos com uvas brancas. As mais comums são: Chardonnay, Pinot Grigio, Sauvignon Blanc etc.
 

  Quais são as dicas básicas para leigos sobre harmonização?

Como falei anteriormente, harmonização vinho-comida não tem regras mas tem dicas. A associação das cores do vinho com comida é a dica que gosto mais. Os vinhos brancos se harmonizam mais com alimentos poucos coloridos como as carnes brancas (aves, carnes, peixes, coelho, frango), e pasta com molhos brancos ou leves. Os vinhos tintos podem ser harmonizados com carnes vermelhas e comida com cor mais “escura”. Outra dica é conjugar comida ligeira com vinhos ligeiros e comida pesada com vinhos pesados e fortes. 


  O preço é sinônimo de qualidade?

Muitas vezes sim, mas não sempre. Claro que escolhendo o vinho mais caro na carta dos vinhos de um restaurante, esse provavelmente será bom… Todavia a coisa mais difícil, e que o consumidor pede sempre mais, são os vinhos de ótimo custo/benefício.
 

  Qual a forma correta de conservar e armazenar as garrafas de vinhos tinto, branco e rosé, especialmente em regiões onde a temperatura é elevada?

A melhor forma de armazenar os vinhos é conservá-los em uma faixa de temperatura entre 14 e 16 graus e resfriá-los até 8-10 graus antes de ser servidos. A umidade relativa correta é de 60-70%. Claro que para manter os vinhos nessas condições precisa de um investimento e adquirir uma adega. Todavia acho que para vinhos básicos, de consumo imediato, é suficiente comprar 3-4 garrafas de vinho e armazená-las diretamente na geladeira.


  Depois de aberta a garrafa, como conservar o que sobrou e qual o tempo limite?

Depende primariamente da categoria do vinho: branco, rosé, tinto ou espumante. No último caso, devido a presença do anidro carbônico, o ideal seria abrir a garrafa e tomá-la inteiramente em 1-2 horas no máximo. Os tintos são aqueles que aguentam mais tempo uma vez abertos, enquanto tem bastante polifenóis (família de componentes presentes naturalmente na uva tinta e que são antioxidantes). Branco e rosé não tem polifenóis e estão sujeitos mais rapidamente à oxidação. Afinal um prazo de tempo geral de guarda, uma vez aberta a garrafa, é o seguinte:

  Tintos = 2 a 3 dias;

  Brancos/Rosés = 1 a 2 dias;

  Espumantes = 1 dia, no máximo.

Existem no mercado vários  acessórios que ajudam a prolongar o tempo de armazenamento. As bombas a vácuo são um investimento econômico, baixo e muito útil.


  O que o senhor acha da máxima " vinho bom é aquele que se adapta ao seu paladar"?

Acho que seja errada enquanto o gosto pode ser subjetivo. Tem fatores e aspectos em um produto bom ou excelente, que são universalmente incontestáveis e reconhecidos da maioria dos consumidores.

Mudando um pouco de assunto, o que acho mais importante, na fase de escolha dos vinhos, é que o consumidor precisa sair da sua área de conforto. Tem consumidores que tomam anos e anos o mesmo vinho, sem experimentar produtos diferentes na mesma faixa de preço. Se quer beber melhor, então muito antes de pegar o saca rolhas, vai ter que mudar muitas coisas.

A minha sugestão é o consumidor ampliar seu repertório aumentando as suas chances de beber vinhos bons com maior frequência, e que ele vai precisar dedicar tanto esforço a comprar seu vinho quanto a bebê-lo.

 

Fonte: Espaço da Mulher (http://vinhos.me/qJLTh)
Por Sandra Santos. Foto: 
Borászportál/Divulgação
OBS.: Este texto, apesar de ser uma entrevista, passou por revisão gramatical e parte dele foi suprimida.


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