Guerra, vinho e Natal
Cem anos atrás a França lançou uma grande ofensiva contra a Alemanha na Primeira Guerra Mundial. O combate se deu na região vinícola de Champagne, que tinha sido invadida pelos alemães poucas semanas após o início do conflito. Quase 200 mil vidas foram perdidas na batalha que durou três meses.

Champagne testemunhou alguns dos maiores combates da guerra. As duas maiores cidades da região – Reims e Epernay – ficaram três anos sob bombardeio. Os moradores abrigaram-se nas caves de casas como Veuve Clicquot, Krug e Taittinger. Os vinhedos viraram campos de batalha.

Mas a produção não parou. Onde não caíam as bombas, mulheres e crianças cultivavam a uva. Jeanne Krug pediu conselhos sobre a manufatura do vinho através de seu marido, Joseph II, feito prisioneiro de guerra. Considerando Krug como uma “valente dama”, o representante de vendas britânico para a casa de Champagne lembrou-se mais tarde de ter vendido “toda a produção de cuvee de 1915 em tempo recorde.”

Um século inteiro se passou desde a Batalha de Champagne. Mas o vinho continua inextrincavelmente atado ao conflito. E as garrafas que sobreviveram continuam a abrir uma janela para outros tempos e épocas.

Nunca esquecerei da noite em que provei uma garrafa perfeitamente preservada de um Bordeaux 1919. O vinho ainda possuía vida; era delicioso e fascinante. Mais importante ainda, o vinho inspirava conversas sobre a vida dos que o haviam produzido. A Primeira Guerra terminou oficialmente em 1919, assim aquele vinho tinha sido feito enquanto limpavam-se os destroços e surgia a esperança de um futuro melhor. A Europa teria apenas um curto alívio. Os combates voltariam apenas vinte anos mais tarde.

Os Hugels, família de produtores da Alsácia, ainda se lembram do Natal de 1939. No ano anterior os Nazistas tinham invadido a Áustria. Depois de anexar a Tchecoslováquia em 1939, Hitler assinou pactos com a Itália e a União Soviética. Uma nova guerra se aproximava.

Como escreveram Donald Kladstrup e Petie Kladstrup em ‘Wine and War’, “Na Noite de Natal, os Hugels reuniram-se... mas foi uma celebração sombria. Em outros anos, a casa era sempre decorada, trocavam-se presentes e sentavam-se à mesa para uma suntuosa ceia que incluía vinhos maravilhosos. Não naquele ano. Todos temiam que aquele fosse o seu último Natal como cidadãos franceses.”

A história do vinho e da guerra continua nos dias de hoje.

Vejamos a Domaine de Bargylus, a única vinícola comercial da Síria. Localizada na encosta de uma montanha na cidade portuária de Latakia, onde a manufatura do vinho vem de 4 mil anos, a vinícola abriu em 2003, quando Karim e Sandro Saadé quiseram honrar o pai cultivando um vinhedo de primeira qualidade. Assim como 10 milhões de outros sírios, os Saades abandonaram suas casas para fugir da sangrenta revolta contra o ditador sírio Bashar al-Assad. Por isso, hoje comandam sua vinícola de Beirute, no Líbano.

Os irmãos nao podem voltar para casa; como empresários, seriam alvo fácil para sequestradores. Dão ordens então aos seus funcionários pelo telefone ou por e-mail. De vez em quando usam taxistas para levar e trazer vinhas pela fronteira.

O Líbano foi poupado do pior do banho de sangue sírio. Mas os proprietários das 47 vinícolas no Vale do Bekaa, no Líbano, sabem que a guerra não está longe. De fato, o leste da região está cheio de militantes do ISIS.

Muitos de nós passamos as festas de fim de ano junto da família e dos amigos, usufruindo de boa comida e bom vinho. Assim como o vinho conhece a guerra, também o mundo a conhece. Demos graças por estarmos longe dela.


Fonte: Achei USA (http://www.acheiusa.com/acheiusa/arquivo/0540/achei-colunistas-david.asp)
Por David White. Foto: Blog Libero.it

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