Marcelo Papa é enólogo da maior vinícola da América do Sul, a Concha Y Toro
Marcelo Papa é enólogo da maior vinícola da América do Sul, a Concha Y Toro

Vinho bom é o vinho de que se gosta. Ponto. É desta forma pragmática que Marcelo Papa, enólogo da maior vinícola da América do Sul, a Concha Y Toro, encara a relação do consumidor com a bebida, um dos quatro principais produtos de exportação do Chile. Ele é responsável pelas linhas Marques de Casa Concha e pelo famoso rótulo Casillero del Diablo.
 

  Conheça a lenda em torno do nome do vinho Casillero del Diablo num post exclusivo feito pela Equipe do Vino Emporium!
 

O Brasil figura entre os seis países que mais importam vinhos da Concha Y Toro, daí porque Papa se dedica anualmente a um tour por duas ou três capitais brasileiras. Numa breve e primeira visita de 24 horas a Salvador – quinto mercado de consumo da Concha Y Toro no país e, por esse motivo, considerado promissor –, Papa conversou muito e desmistificou essa história de que vinho só é bom quando é caro.

Ele revelou, ainda, que há uma tendência entre consumidores no mundo de preferir vinhos mais leves e refrescantes. Atenta a isso, a vinícola aposta na linha Marques de Casa Concha para ofertar vinhos mais fáceis, menos generosos na madeira e nos taninos, mas que preservem a qualidade premium. Ou, como compara Papa, estão colocando a cereja no bombom de chocolate, para não cansar o paladar.

Aos enólogos, Marcelo Papa deixa uma sugestão com a experiência de quem soube rapidamente conquistar seu lugar no mercado: é preciso ter inquietude para degustar, experimentar vinhos diversos e de toda parte. E, finalmente, ter uma opinião do que quer ou não.


  É a primeira vez que você vem a Salvador. Qual é a importância da capital baiana nos planos da Concha Y Toro no Brasil?

Eu sou responsável pela produção das linhas Marques de Casa Concha e do Casillero del Diablo. Somente da produção da linha Marquês – que são vinhos mais elaborados – o Brasil é o 4º no nosso ranking de consumo – o primeiro é o próprio Chile, com 19%, depois os EUA, com 11%; Canadá, com 9%; e o Brasil aparece consumindo 7% de toda a produção dessa linha – isso significa 150 mil caixas (de 12 garrafas de 750 ml). Quarenta e cinco por cento disso é cabernet sauvignon. Ganha para Inglaterra (6%). Estamos crescendo as nossas exportações para o Brasil. E, dentro do Brasil, Salvador é o quinto mercado nosso de consumo e vem crescendo, não saberia lhe dizer exatamente quanto, mas é bastante promissor. Por isso estamos dando atenção à Bahia.

 

  Mas você veio anunciar mudanças na produção da Marques de Casa Concha. O que exatamente vai mudar?

Bom, anos atrás, nos últimos 10 ou 15 anos, as vinícolas ao redor do mundo prezavam por produzir vinhos mais generosos, de maior teor alcoólico, com mais carvalho, encorpados, que resultavam no que eu chamo de vinhos "bombom de chocolate" – refiro-me aos tintos –,  todos gostam de um bombom de chocolate. Mas são vinhos que terminam cansando um pouco, certo? Então, estamos mudando um pouco. Há uma tendência entre os produtores. Estamos trocando o "bombom de chocolate" por um "chocolate com cereja", talvez. Ou seja, menos madeira, menos taninos, mais acidez, para que o vinho seja menos pesado. Essa é uma tendência em todas as áreas vitivinícolas do mundo.

 

  É um hábito que vem mudando entre os consumidores de vinho no mundo?

Sim. Então, mudamos a cara do bombom de chocolate, que são vinhos de alto teor alcoólico, encorpados – o que também está ok. Mas hoje há uma tendência que diz que nem todos os vinhos precisam ser assim. As pessoas querem diversidade, vinhos mais frescos, isso é o que estamos tentando fazer: entregando diversidade, mais frutas vermelhas (vinhos mais delicados) e menos frutas negras (vinhos mais maduros). Isso está acontecendo em todo o mundo. E estamos fazendo isso com os vinhos da linha Marquês de Casa Concha, sem abrir mão da qualidade que caracteriza a marca.

 

  Você é o enólogo responsável pela linha Marquês, mas também pelo famoso Casillero del Diablo. Como você entrou no mundo dos vinhos?

Assim como a minha família, o vinho faz parte da minha vida. Meus quatro avós são italianos, o vinho faz parte. Estudei agronomia na Universidade Católica em Santiago, do Chile. E pensava em atuar na fruticultura. Mas participei de alguns cursos de enologia dentro da universidade e gostei muito. Me apaixonei, continuei e não parei mais. E comecei a querer provar todos os vinhos, italianos, franceses, de todos os grandes produtores. Quando Concha Y Toro precisou de uma pessoa da área, eu estava saindo da universidade, mas arrisquei e fui à entrevista. E, creia, como é a vida, muito curiosa, fui contratado. E isso já tem 20 anos.

 

  A Concha Y Toro é a maior vinícola da América do Sul. Como isso se traduz em números?

De todas as linhas da vinícola Concha Y Toro: são 25 milhões de caixas (com 12 garrafas) exportadas para mais de 130 países. O Brasil está entre os seis maiores em exportação. Sou responsável pelo Marquês de Concha e pelo Casillero.

 

  Que é talvez o vinho mais conhecido...

Sim! É uma marca muito antiga, do começo dos anos 60. Este ano, completa mais de 50 anos de história. Além de ser uma marca muito antiga, ela  é também muito importante para o Chile. Quando alguém vê uma garrafa de Casillero, automaticamente pensa no Chile. Nos últimos 20 anos a marca cresceu. É um vinho que mesclamos uvas de muitos vinhedos. Não é um vinho de origem específica (de um vinhedo certo) como Marques de Casa Concha, mas pode-se dizer o seguinte: Casillero del Diablo é um cabernet sauvignon do Chile, com tudo de bom e de mal do Chile (risos). A maioria das uvas do Casillero é da Concha Y Toro, mas compramos também de bons produtores.

 

  A Concha Y Toro tem diversas linhas. Aqui, muita gente torce o nariz para o Reservado. Alguns dizem que o nome é puro marketing para que o brasileiro creia que está levando um vinho bom para casa, um Reserva...

Reservado que chega aqui é um vinho que em outros mercados se vende com rótulo diferente, que se chama Frontera. Quando viajar aos Estados Unidos, Chile ou outros países, vai encontrar um rótulo Frontera, que é o mesmo vinho de nome Reservado que vende no Brasil. Mas a marca Concha Y Toro Reservado existia no Brasil há muito tempo e as pessoas a reconhecem e compram. Por isso foi mantido. É o único país em que o Frontera tem o nome de Reservado. É um vinho simples, não é uma Reserva, é um nome apenas, e talvez as pessoas confundam com algum status de qualidade. Reservado é um nome. É um vinho fácil de tomar, de taninos redondos, para o dia a dia, mas não é um Reserva, por isso não se deve pensar que estamos parecendo querer vender um Reserva. É só o nome do vinho. E é menos caro.

 

  Na sua opinião, todo vinho caro é bom?

Não necessariamente. Mas há uma intenção do produtor de fazer um vinho melhor, mas isso não quer dizer necessariamente que ele seja bom para você ou que necessariamente você goste deste vinho caro. Aqui temos que deixar de lado essa história de vinho bom e vinho mau. O mais importante é um vinho que o consumidor goste ou não.

 

  Mas isso é do ponto de vista do consumidor. E do ponto de vista do enólogo?

Em geral, os vinhos caros são bons vinhos. Mas, de um modo geral, são vinhos que estão "sobrevalorados". Assim como há vinhos baratos, que são muito bons, estão "subvalorados". Por isso é importante que todas as vinícolas tenham uma linha com preço e qualidade, bom custo-benefício, como se diz, porque essa é a única forma de transmitir uma mensagem clara para o consumidor. Senão, fica perdido entre cifras.

 

  E, para você, o que é um vinho bom?

Um vinho que eu desfruto. Ponto. Não me importa a  marca, o  preço, a uva... não me importa. Se eu desfruto, é um bom vinho; se não desfruto, é um vinho mau. Vinho de R$ 20 mil e eu não gosto? Mau vinho. Vinho de R$ 60 que é extraordinário? Bom vinho. Da Concha Y Toro, por exemplo, Casillero é mais barato que a linha Marques (que no Brasil sai por cerca de R$ 90), mas tem algo muito bom que é o seguinte: se comprar um cabernet Casillero, vai sentir a variedade do cabernet. Se comprar um malbec vai sentir malbec. É um aprendizado. Portanto, Casillero é um vinho bom, não muito caro e que é um ponto de entrada para conhecer bem as variedades e determinar que variedade que você gosta mais. Para o que oferece, é um vinho bom.

 

  Qual foi o impacto da crise econômica do Brasil nas exportações da vinícola?

Até agora, para a Concha Y Toro está impactando de forma neutra ou positiva. Porque os consumidores, quando há crises, não querem arriscar tanto e compram marcas conhecidas. E Concha Y Toro é uma marca conhecida. Estamos crescendo 10% em 2015. Entretanto, em relação às exportações, teremos uma margem menor porque o real subiu em relação ao peso chileno. Estamos mantendo os preços do ano passado. Já, na Europa, estamos crescendo, mas é difícil, porque muitos produtores europeus estão com produtos de boa qualidade no mercado europeu a preços menores. Mas estamos vendendo bem.

 

  Essa história de a carmenère ser a uva emblemática do Chile é puro charme ou ela é de fato?

Para mim, a carmenére não é tanto a grande uva do Chile. Carmenère é uma variedade importante que se dá bem no Chile, mas não é a variedade mais importante, há muitas outras em que podemos investir para o futuro. Carignan, por exemplo. As uvas que eu gosto muito do Chile são cabernet, syrah e carignan – para mim, muito atrativas. Carignan, que não é tão popular no Brasil.

 

  Qual a principal qualidade que um enólogo deve ter?

Todo enólogo tem que ter inquietude para degustar, experimentar vinhos diversos e de toda parte.

 

  Como é seu processo criativo para elaborar um vinho?

Creio que... pode ser visto como um processo criativo, mas não pode torcer tanto a mão à natureza. Se a natureza aqui na Bahia produz coco, por que produzir maçã? Um cabernet sauvignon do Maipo (Valle de Maipo) produz cabernet sauvignon de Maipo. Porque tentar produzir um cabernet sauvignon que é uma tipicidade de Maipo em outro local? Então, o processo criativo tem a ver com o conhecimento que temos do terreno, das uvas.

 

  O que o apreciador comum tem que ter em mente ao se deparar com um vinho?

Que experimente e que descubra se gosta deste ou de que vinho gosta mais. De que tipo de vinho gosta mais. Que experimente. Eu já tomei vinho bem ruim quando era jovem. Há que se experimentar. A única forma de aprender é experimentando. Um vinho é ruim quando não te entrega prazer. Se o vinho não te entrega prazer, ele pode ser considerado um mau vinho. Para uma pessoa, um vinho entrega prazer; para outra pessoa, não. É como uma pintura: você gosta desta pintura específica e ela lhe entrega prazer. Portanto, para você é uma boa pintura. Mas, para mim, não gostei. Não me entrega prazer. Provar vinho é uma experiência dinâmica. Transforma.

 

  Você cozinha e harmoniza? O que costuma  levar em conta?

Sim, gosto de cozinhar. Mas minha mulher, Glória, é chef. Então, tenho pouco espaço na cozinha de minha casa (risos). Mas cozinho parrilla, risotos e nhoque. Não é fácil harmonizar, mas é preciso experimentar com toda a concentração o sabor dos pratos. Claro que, de modo geral, temos a regra dos pescados com vinho branco, das carnes com tintos, as sobremesas com vinhos doces, são gerais. O mais importante é experimentar e ir descobrindo os sabores. Você pode combinar aquilo que quiser. Contanto que goste do resultado, está bom.


  Conhece o vinho brasileiro?

Conheço pouco. Conheço mais os espumantes, que são muito bons, são feitos com boa técnica e há espumantes muito interessantes. Com vinhos tranquilos, eu  tenho pouco experiência. Mas provei um dos Vale do São Francisco (não consigo lembrar o nome). Eles são bons, mas caros pelo vinho que é. Também degustei vinhos do Sul, alguns merlot, da Miolo e outras marcas.

 

  Você vem ao Brasil anualmente, há 15 anos. O que, em sua opinião,  mudou no perfil do consumidor de vinhos?

O consumidor de vinho está mais habituado. Há mais consumidores, mais lojas, mais restaurantes com cartas de vinhos, mais curiosidade e mais vontade de conhecer.


Fonte: A Tarde (http://vinhos.me/9k62V)
Por Regina Bochicchio. Foto: Sara Matthews/Divulgação


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