Sangue da terra
Como pode caber a terra dentro de uma só garrafa? Só desta forma compreendemos a enorme riqueza que se esconde por detrás de uma simples garrafa de vinho. Parafraseando o grande Robert Stevenson “o vinho é poesia engarrafada”! O vinho, esse “ouro líquido” que nasce da terra mais do que uma irrefutável supremacia, assume um caracter de uma “causa nacional”. O vinho é o sangue da terra que brota das raízes e dá a vida e a voz à região onde nasce e se bebe. O vinho é a expressão do carácter de um povo.
 
“O vinho fala a partir da videira que lhe dá vida”. Tem milhares de vozes, reúne um conjunto de histórias, segredos, desejos, aspirações, emoções que se misturam e se escondem dentro de uma só garrafa. Dependendo da região onde nasce, encorpa um conjunto de características de aromas e sabor únicos que lhe vão imprimir uma identidade cultural própria que urge preservar, enaltecer e valorizar. Cada gole é um sopro de outros tempos, de outras regiões, que exprime, para a generalidade das civilizações, um riquíssimo património: cultural, económico e histórico.
 
A reconhecida (bio)diversidade do nosso país está nas garrafas. A “enodiversidade” que caracteriza a viticultura portuguesa assenta numa enorme variedade de castas (4000 variedades de uvas identificadas e catalogadas) que ocupa, entre os países com maior número de castas, o segundo lugar do pódio. Cada uma destas castas apresenta uma folhagem própria, cachos distintos que porventura dão corpo a vinhos com perfis, sabores e aromas muito próprios.
 
Como é que um país com uma área tão reduzida tem dimensão suficiente para albergar um enorme “espólio vínico” e ser considerado um dos maiores produtores mundiais de vinho? A resposta está nas diversas regiões que integram o território nacional que vão imprimir ao “sangue da sua terra” um carácter regional único, exclusivo, um estilo, uma marca própria que se apresenta com um aroma e sabor inconfundíveis, distintos dos congéneres produzidos nas regiões vizinhas.
 
Um caso muito particular de uma casta autóctone, o Callum, é oriundo das terras férteis do concelho de Oleiros. Apesar de não partilhar da fama e da grande expressão da maioria dos vinhos durienses e alentejanos, este monocasta escapou das marcas da modernidade e preserva ainda características históricas, que remetem para o período medieval, em que os vinhos não levavam qualquer tipo de tratamento. Por isto também o vinho conta a história de um povo.
 
Se quiser conhecer a história de uma terra, a cultura de um povo, beba o “sangue da sua terra”.
 
 
Fonte: O Mirante
(http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=78667&idSeccao=543&Action=noticia#.VJMm5yvF-aU)
Por Vanessa Schnitzer. Foto: Divulgação

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