Foto: Bruno Marçal
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Foto: Otávio Silveira
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Foto: Revista Galileu
Foto: Revista Galileu

Nos próximos anos, as melhores safras de vinho serão produzidas em regiões com pouca ou nenhuma tradição (como China, Inglaterra e Tasmânia), terão um teor alcoólico muito mais alto, e, pior, a garrafa custará bem mais caro. A culpa, claro, é do aquecimento global

Dos 460 hectares de terra de que a vinícola Herdade do Esporão dispõe para o cultivo de uvas em Reguengos de Monsaraz, na região do Alentejo, em Portugal, uma área de pouco mais de 2% já é considerada a mais promissora para o futuro do negócio. Ali, a segunda maior produtora de vinhos do país desenvolve, em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (Iniav), uma bateria de testes ampelográficos (ramo da botânica que identifica e classifica as variedades de uvas) para estudar 189 castas diferentes. O objetivo é avaliar o DNA de uvas como ­bragão, amor-não-me-deixes e müller-thurgau para saber quais podem se adaptar melhor às condições climáticas da região. A preocupação tem fundamento.

Com o aumento da temperatura do planeta em seis graus Celsius até 2050, a indústria do vinho será uma das primeiras a passar por uma grande transformação – desde o surgimento de novas regiões produtoras, como China e Tasmânia, até o aumento do preço da garrafa. “As mudanças climáticas vão chacoalhar a distribuição geográfica da produção de vinho, e isso levará à abertura de novas regiões para o cultivo dessas e de outras uvas pela primeira vez”, disse a GALILEU Lee Hannah, pes­quisador sênior na área de mudanças climáticas em biologia na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.


  Tudo invertido – enquanto na Austrália a produção de vinho pode sofrer uma queda de até 70% em 35 anos, na Tasmânia, ilha ao sul do país, ela cresce 10% ao ano. A ilha já tem 1500 ha dedicados à vinicultura, cifra que deve triplicar até 2050.
 

A fim de preparar-se para essas mudanças, produtores de todo o mundo estão testando alternativas. Na vinícola do Alentejo, o trabalho dos enólogos é fazer microvinificações (produção de microlotes de vinho) dessas uvas para medir seu potencial. “No ano passado iniciamos as microvinificações de quatro castas a fim de validar as características dos vinhos resultantes”, diz a enóloga Sandra Alves, da Herdade do Esporão. A ideia é triplicar os testes este ano. “Queremos checar como essas uvas reagem ao estresse hídrico e térmico e se essa resposta natural pode ou não produzir bons vinhos.” Os resultados talvez indiquem que uvas autóctones (nativas de sua região), como a rabigato francês, ou até castas internacionais, como a feteasca alba, podem render melhores vinhos em temperaturas mais altas do que variedades como gouveio, verdelho ou chardonnay, que já são cultivadas pela vinícola.

Estudos coordenados pelo professor Lee Hannah e publicados no ano passado pela Academia Americana de Ciências revelam que 80% das terras usadas hoje para produção de vinho na França, na Itália e na Espa­nha serão impróprias para esse fim até meados deste século. A Austrália deve sofrer uma queda de 75% em sua produção, e a Califórnia pode enfrentar um declínio de 70%. Os pesquisadores utilizaram 17 modelos climáticos diferentes nas principais áreas vinícolas e concluíram que as grandes mudanças acontecerão sobretudo em regiões que se beneficiam de invernos frios e verões secos, como Bordeaux, na França, ou a Toscana, na Itália. O aumento da temperatura do planeta vai ocasionar o deslocamento das melhores condições para o cultivo de uvas para áreas mais frias, mais próximas dos polos. “As regiões que têm as condições mais adequadas para determinadas variedades de uvas, como a pinot noir e a chardonnay, devem mudar”, afirma o pesquisador. “Esperávamos ver mudanças significativas com as pesquisas, só não imaginamos que seriam tão significativas assim.”
 

  Fim da tradição – o sul da Inglaterra já desponta na produção de vinhos: alguns dos espumantes feitos lá têm desbancado Champanhe (a tradicional região francesa) em competições internacionais. Bordeaux, na França, e a Toscana, na Itália, devem diminuir a produção em 85%, colocando em risco vinhos icônicos, como o Brunello di Montalcino.


MENOS CASTAS, MAIS ÁLCOOL

  A grande verdade é que as mudanças climáticas vão criar um novo mapa da viniviticultura mundial.

Assim como a Califórnia surgiu como produtora de vinho principalmente a partir da década de 1970, especialistas acreditam que outras regiões também podem se destacar. Um exemplo é a Tasmânia, ilha ao sul da Austrália, cuja produção de vinhos vem aumentando 10% ao ano desde 2009 – enquanto o país como um todo teve crescimento anual de apenas 1% na vinicultura durante o mesmo período. A ilha pode se tornar a maior produtora da Oceania se a temperatura seguir aumentando como previsto. Jancis Robinson, uma das maiores especialistas em vinhos no mundo e autora do Atlas Mundial do Vinho (relançado recentemente no Brasil, pela Globo Livros), já vê mudanças positivas em certas regiões por causa do aquecimento global.

Para ela, o aumento da temperatura permitiu produzir uvas com melhor amadurecimento em Central Otago, na Nova Zelândia, e na Colúmbia Britânica, no Canadá. Mas é possível que no futuro as prateleiras dos supermercados fiquem cheias de vinhos de países do norte da Europa (como Alemanha, Dinamarca, Inglaterra e Suécia), dos estados do noroeste dos Estados Unidos, do Canadá, da Rússia e até da China.
 

  Fim de papo – vinhos da África podem sumir em 50 anos caso o aumento de 4,7 graus Celsius na temperatura do planeta se concretize. Na África do Sul, o único país do continente a produzir uvas viníferas, a produção deve cair 55% até 2050.


Se a procedência dos vinhos descrita nos rótulos deve mudar, as castas e até os blends (misturas de uvas que fazem um vinho) também se transformarão à medida que a temperatura do planeta sobe. Variedades com melhor adaptação ao calor, como tempranillo, syrah e garnacha, podem ter sua produção aumentada para substituir uvas que se dão melhor em climas frios, como pinot noir e cabernet franc. Alguns vinhos brancos, aliás, talvez tenham sua produção seriamente afetada e corram sério risco de desaparecer. Isso porque a casca das uvas de que são feitos não consegue resistir ao clima mais quente – podendo levar à extinção dos vinhos produzidos a partir de castas como gewürztraminer ou pinot gris.

Outro efeito colateral do calor é o aumento da porcentagem de álcool nas garrafas. Ao fazer fotossíntese, as parreiras produzem açúcar, que vira álcool durante o processo de fermentação. Graças à maior incidência de raios solares e ao efeito estufa, as uvas vão amadurecer mais rapidamente. Isso faz os frutos concentrarem mais açúcar, que será metabolizado em álcool. O resultado? Maior teor alcoó­lico, o que já vem sendo comprovado: vinhos produzidos hoje em Bordeaux, na França, contêm até 16% de álcool. No início da década de 1980, esse percentual era 3,5 pontos menor.

  Os vinhos feitos da uva zinfandel, principalmente na Califórnia, ficaram 30% mais alcoólicos desde 1990, segundo a Associação de Viticultores do Vale do Napa.

“Muitas das vinícolas da região subestimam os níveis alcoólicos de seus vinhos”, afirma James Lapsley, professor do departamento de viticultura e enologia da Universidade da Califórnia, que avaliou com um grupo de pesquisadores de outras áreas dezenas de vinhos produzidos ali. Eles identificaram disparidades entre o teor alcoólico indicado no rótulo e o que de fato havia na bebida. Existe um fator comercial que explica isso: vinhos mais alcoólicos são menos consumidos. “E, quanto mais quente a temperatura, menos álcool as pessoas desejam em suas taças”, diz Julian M. Alston, do departamento de agricultura e pesquisas econômicas da mesma universidade, que também participou dos estudos.
 

  Para os fortes – os vinhos californianos feitos com a uva Zinfandel, já considerados bastante alcoólicos por especialistas, devem ficar ainda mais fortes nas próximas décadas por causa do aumento da temperatura. Em 30 anos, o percentual de álcool deve subir 30%.

 

CAROS E RAROS

Segundo Alston, que é também um dos editores do Journal of Wine Economics, publicado pela Universidade de Cambridge, os produtores tanto das novas quanto das velhas regiões viníferas terão de suar para produzir vinhos com o clima mais quente. “É preciso começar a investir agora para ter bons resultados em algumas décadas”, diz ele. Enquanto algumas vinícolas compram propriedades em regiões mais promissoras (como a Bodegas Torres, uma das maiores da Espanha, que acaba de garantir terras para começar a produzir na Tasmânia), outras investem em técnicas para mitigar o calor e proteger as uvas do Sol. Nos Estados Unidos, produtores contam com o custoso trabalho manual de agricultores (antes utilizados para separar as bagas contaminadas por fungos) para descartar as uvas muito maduras. “Cerca de 15% da produção de uvas que poderiam ser boas vai para o lixo”, afirma Alston. “É como abrir mão de 15% da sua produção em prol de um vinho de melhor qualidade”. Os custos, claro, são repassados às garrafas, tornando os vinhos mais caros.

Outra questão que pode elevar o preço da bebida são as chuvas torrenciais, cada vez mais comuns em muitos paí­ses. No ano passado, vinicultores da Borgonha, na França, foram surpreendidos por uma tempestade de granizo de três minutos de duração que afetou algo entre 50% e 90% da produção de uvas de algumas propriedades. “Além de alterar as temperaturas médias e os regimes de precipitação, o aquecimento global pode provocar eventos extremos como inundações e tempestades, muito prejudiciais às uvas”, afirma Alistair Nesbitt, do departamento de enologia do Plumpton College, na Inglaterra. Essas perdas exigem replantio e investimentos que podem até dobrar o preço dos vinhos nas próximas décadas. Um metro quadrado de parreiras, por exemplo, pode custar mais de US$ 25 mil em regiões da Europa e dos Estados Unidos.

Mas, para os amantes de vinho já preocupados com os problemas causados pelo aquecimento do planeta até 2050, as más notícias não param por aí. Previsões feitas pelo Imperial College, do Reino Unido, indicam que mesmo áreas consideradas promissoras para produzir vinhos na Inglaterra serão quentes demais para isso 30 anos mais tarde – em 2080. “Temos de torcer para que nossos estudos não sejam tão precisos”, diz Nesbitt. “Ou para conseguirmos controlar o aumento da temperatura do planeta nos próximos anos.” Do contrário, a taça de vinho no jantar terá de ser substituída por um copo d’água. Isso se houver água, é claro.

 

Fonte: Revista Galileu (http://vinhos.me/Awf8s)
Por Rafael Tonon


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