Será que um copo de vinho tinto por dia faz mesmo bem à saúde?

Um estudo recente relaciona o consumo moderado de vinho tinto com o aumento do "colesterol bom".
Numa tentativa de desmistificar o néctar de Baco, perguntamos a quem sabe quais as suas vantagens.

Estudos há muitos. Uns defendem que o vinho tinto tem benefícios para a saúde, outros questionam as suas propriedades. O mais recente foi divulgado em 13 de outubro, na publicação científica Annals of Internal Medicine.

  Leia o post no Vino EmporiumVocê sabe o que acontece se beber vinho tinto todas as noites?


Posto isto, quais os benefícios do vinho tinto? 

“Podemos dizer que, dentro da janela do consumo moderado, as suas vantagens são muitas”, começa por esclarecer Conceição Calhau, professora de Bioquímica e Toxicologia Alimentar na Universidade do Porto e investigadora do CINTESIS. É ela quem se apressa a explicar que o fato do vinho proveniente de castas tintas ser rico em polifenóis faz com que a bebida tenha efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios, além de permitir a diminuição de células tumorais. A também nutricionista e autora dos livros A Dieta Simples e Dieta 1,2,3, Iara Rodrigues, acrescenta que a presença do resveratrol nas uvas contribui ainda para a redução de colesterol.

  A enumeração das vantagens associadas ao néctar favorito de Baco não fica por aqui, uma vez que o vinho tinto possibilita alterações microbióticas, isto é, estimula o aumento de bactérias boas nos intestinos, órgão onde se encontra a segunda maior concentração de neurônios.

  Em relação às doenças cardiovasculares, o papel da bebida já entra na esfera do senso comum, com o consumo moderado sendo capaz de aumentar o dito “colesterol bom”.

  Mas não é só bebendo que conseguimos adquirir os seus benefícios, lembra Conceição Calhau: “O padrão alimentar mediterrâneo consiste em consumir vinho tinto [à refeição], mas este também é usado para temperar alimentos. A carne marinada em vinho tinto, por exemplo, ajuda a prevenir a formação de compostos carcinogênicos que se formam durante o processo culinário”. Preto no branco, o fato de o alimento estar em contato com o vinho vai prevenir a formação destes componentes.

  Na lista de vantagens é importante evidenciar ainda a presença de etanol. “Um vinho sem álcool pode não ter o mesmo efeito, até porque o fato do etanol estar presente na bebida ajuda a potenciar os benefícios do néctar”, afirma Calhau, salientando que o vinho tinto deveria, na sua opinião, ser considerado uma “bebida fermentada” e não alcoólica, termo com “má conotação”.


Mas o que é um consumo moderado?

  Esta é uma pergunta à qual é difícil responder, dado que o tema é discutível dentro da comunidade científica e depende, segundo a nutricionista Conceição Calhau, da etnia, composição corporal e idade de uma pessoa. Mas se não há limite mínimo definido, o mesmo não se pode dizer em relação à linha que separa o que é moderado do que não o é: a ideia é nunca beber mais do que um a dois copos por dia.

É que o consumo exagerado está diretamente relacionado com a toxicidade do álcool que, por sua vez, afeta o sistema nervoso central e pode até ser responsável pelas constantes perdas de memória. Outra desvantagem considerada a longo prazo relaciona o consumo desregrado de vinho tinto com o aumento do risco de alguns tipos de cancro.

Mas não é só a quantidade bebível que entra em debate, como também as circunstâncias em que, neste caso, o vinho tinto deve ser ingerido — “Deve-se beber o vinho à refeição, sem dúvida nenhuma”, afirma Calhau, explicando que ingerir vinho em jejum faz com que o álcool chegue mais rapidamente ao sangue, o que representa um nível mais elevado de toxicidade.

A nutricionista Iara Rodrigues, por sua vez, coloca outra ideia em cima da mesa, defendendo que quem não ingere álcool não deve começar a beber vinho apenas por este estar associado a um conjunto de benefícios: “Não vou considerar vinho no plano alimentar de alguém que não o beba. Estamos falando de álcool e o álcool vai sempre afetar a saúde de uma pessoa”.  

No outro lado da barricada, Rodrigues afirma ainda que quem bebe com frequência deve dar privilégio ao vinho por comparação a outras bebidas, dado que tem menor teor alcoólico do que outras propostas tentadoras como o gin ou o whisky. “No vinho podemos falar dos benefícios da uva relacionados com a parte cardíaca e enquanto agente regenerador de células, no caso das bebidas destiladas isso não acontece. Correspondem à manipulação de cereais e têm um teor alcoólico mais elevado”. Para esta nutricionista, o vinho está no topo da hierarquia das bebidas alcoólicas, sem descurar — repita-se — o seu consumo moderado.


Fonte: Observador.pt (http://vinhos.me/sZwWT)
Por Ana Cristina Marques. Foto: AFP/Getty Images
OBS.: Este texto passou por revisão para o Português Brasileiro e não foi publicado na íntegra.


Comentários