Turismo de experiências impulsiona a Serra
Iniciativa deu tão certo na Região da Uva e do Vinho que ganhou a adesão de outros quatro destinos brasileiros

Desde que virou produto turístico em Bento Gonçalves e em outros seis municípios vizinhos da Serra Gaúcha, a época de vindima tem representado bem mais do que seu significado – período de colheita das uvas e início da produção do vinho. É também o momento de aumento de reservas em hotéis e restaurantes, de venda de artesanato e de vinhos, e de recebimento de visitantes provenientes de todo o país. Além do Bento em Vindima, evento oficial do mês de março, realizado pela prefeitura municipal (que promove degustações e vendas dos produtos das vinícolas locais), a partir de janeiro representantes da iniciativa privada já disponibilizam programas e roteiros focados na experiência de turistas em contato com a colheita da fruta. As ações integram o Tour da Experiência, implementado em 2006, e vinculado ao projeto Economia da Experiência, do Ministério do Turismo em parceria com Sebrae, Instituto Marca Brasil e Sindicato dos Hotéis da Serra Gaúcha. 

Vino Emporium  A partir de vivências diferenciadas dos programas tradicionais de turismo, as propostas buscam encantar e fidelizar visitantes, através dos sentidos. Pular carnaval embaixo dos parreirais, colher, cortar as sementes fora com as mãos e amassar as uvas com os pés, conforme o método antigo, para depois fazer o vinho, estão entre os atrativos que a agência Arte do Turismo, de Caxias do Sul, oferece. Outras atividades ligadas ao período, como passeios por cantinas históricas, vinícolas e museus também integram os roteiros oferecidos pela empresa, administrada pela turismóloga Mônica Alexandra Leigue de La Torre. Segundo ela, para o início de 2015 os dois produtos de experiência já contam com aproximadamente 120 agendamentos. “Desde que implementamos o Venha Fazer o Vinho com Arte e o Carnaval Embaixo dos Parreirais, crescemos em torno de 20% nas vendas de pacotes da agência”, afirma a empresária.  

Quem optar por fazer vinho artesanal durante o passeio à Serra Gaúcha, será conduzido à Cantina Tonet, onde será recepcionado com chapéu para se proteger do sol, e a bacia que será usada para a lida própria de um colono italiano. “O turista vai ao parreiral acompanhado por um instrutor para realizar a coleta e depois a brincadeira de pisar uvas”, explica Mônica.  Como lembrança do processo de elaboração do vinho, o visitante pode encomendar a bebida que ajudou a fazer, com rótulo personalizado. Este roteiro acontece normalmente na época da safra da uva, no período do final de janeiro até março. Já o Carnaval Embaixo dos Parreirais é embalado por música italiana, tocada à gaita, e com direito a serpentina e confete. O turista é conduzido de carretão até os parreirais da família Bonnet, onde além da festa inusitada – regada a espumante e cachos de uvas – também participa de degustações de vinhos. As atividades custam R$ 116,00 por pessoa, com almoço incluso. 

De acordo com Mônica, cerca de 200 pessoas por ano participam dos dois roteiros, que integram uma lista de dezenas de alternativas de experiência e emoção vinculadas ao turismo na Serra. Atualmente 21 empreendimentos estão envolvidos com o projeto, e outros 14 estão previstos para aderir ao programa, que recebe consultoria permanente do Sebrae/RS. “Virou apelo para a região como um todo”, afirma a presidente do Sindicato de Hotéis e Restaurantes, Bares e Similares de Caxias do Sul, Márcia Ferronato. “O consumidor busca experiências em pequenos grupos. Isso atrai os visitantes, pois há uma mudança de comportamento do turista, que buscamos trabalhar nestes últimos oito anos”, aponta.


Sebrae e empresários buscam novas formas de comercializar os produtos turísticos

“A questão emocional é um agregador quando se fala em turismo. O produto com carga emocional atinge o coração, a alma, surpreende, fazendo com que a pessoa tenha vontade de voltar”, opina a presidente do Sindicato de Hotéis e Restaurantes, Bares e Similares de Caxias do Sul, Márcia Ferronato, que coordena o projeto Tour da Experiência na Região Uva e Vinho. 

Conforme o gestor de projetos do Sebrae-RS, Emerson Monteiro, a entidade desembolsa R$ 80 mil por ano em visitas técnicas, capacitações e promoção da inovação para o grupo de empresários de sete municípios da região da Serra Gaúcha que estão inclusos no programa. Além de Bento Gonçalves e Caxias do Sul, Garibaldi, Veranópolis, Vila Flores, Nova Prata e Cotiporã também estão focados em atrair visitantes de turismo de experiência.

Em Garibaldi, o restaurante Osteria della Colombina promove almoço típico italiano, que se diferencia do tradicional por apresentar receitas da avó da proprietária. “Funciona só com agendamento, e sempre lota”, diz Monteiro. Lá o cliente recebe uma massa de pão, para manusear, e formatar uma pomba, que depois será enviada para assar na cozinha do empreendimento. “No final, a pessoa leva o produto para casa.” Também o Filó de Vila Flores é campeão de popularidade. A festa típica italiana é promovida por 20 pessoas da terceira idade, que contam histórias, tocam música e dançam para os turistas.


Projeto gaúcho serve de inspiração para empreendimentos em outras cidades do Brasil

O projeto piloto do Tour da Experiência iniciou na Região Uva e Vinho do Rio Grande do Sul, mas já ganhou adesão de outros quatro destinos brasileiros. Em Petrópolis, na região serrana do estado do Rio de Janeiro, a Pousada Paraíso oferece a oportunidade do visitante plantar uma árvore e conhecer um pouco de história, com citações da importância da atuação do imperador Dom Pedro II no incentivo à pesquisa da flora e fauna brasileira e do reflorestamento da Floresta da Tijuca. 

A proprietária, Mariana Ferraz, conta que o programa foi implementado em 2008 e encanta famílias inteiras, que também buscam o espaço para contemplação de aves. O atendimento diferenciado – quase familiar – em meio à natureza, agregado ao turismo de experiência tem ajudado na fidelização da clientela. 

“Levando em consideração que Petrópolis tem 90 pousadas legalizadas, este diferencial é fundamental em termos de competitividade”, afirma Mariana, contando que todo o cliente que participa do reflorestamento do terreno da pousada – que enfrentou um incêndio há cerca de cinco anos atrás – pode acompanhar o crescimento da sua árvore via fotos pela internet.

Outros destinos nacionais, como Belém (PA), Bonito (MS) e Porto Seguro (BA), também acreditaram no programa e têm ofertado produtos em que a emoção – além dos atrativos convencionais – é um dos principais ganchos para conquistar os visitantes. “Inovar é possível e isso pode incrementar em muito o turismo em nossa região”, opina a proprietária da pousada fluminense.


Fonte: Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=182661)
Por Adriana Lampert

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