Produtores trocam vinho por mercado de suco de uva

  Historicamente dependente do mercado de vinhos finos e de mesa, a produção de uva gaúcha é revigorada com a destinação cada vez maior das frutas para elaboração de sucos e derivados. Com crescimento superior a 100% nos últimos cinco anos, o mercado absorveu na última safra 55% do volume de uvas processadas no Rio Grande do Sul.

Produzidos com variedades híbridas americanas, que ocupam 90% da área cultivada no Estado, os sucos de uvas têm incentivado produtores a investir na atividade. Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando da Silva Protas enfatiza que há “uma tendência muito clara” de parte das variedades viníferas tintas cultivadas na Serra Gaúcha serem substituídas por variedades híbridas americanas – adaptadas ao clima e mais resistentes a doenças fúngicas. “O produtor tem encontrado nas uvas para sucos um mercado menos arriscado, mais seguro”, destaca Protas.

  Graças ao crescimento da demanda pela matéria-prima, puxada por aspectos nutricionais da bebida natural, a vitivinicultura gaúcha tem sentido menos os efeitos da forte competitividade enfrentada pelos vinhos nacionais em relação aos importados. “Os sucos reduziram a dependência da produção de vinhos, impulsionando o crescimento moderno da vitivinicultura”, diz o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, empresa que desenvolveu novas variedades de uvas híbridas americanas nos últimos anos.

Produtora há mais de 30 anos no distrito de Tuiuty, no interior de Bento Gonçalves (RS), Ivoni Menegottto tinha apenas uvas viníferas em quatro hectares cultivados. Há pouco mais de cinco anos, passou a investir também nas variedades Isabel e Violeta – ambas destinadas à produção de sucos e derivados. ”São mais fáceis de cuidar. Nas viníferas, chegamos a fazer 26 aplicações nesta safra. Nas comuns (híbridas) fizemos 11 aplicações, menos da metade”, compara Ivoni.

A produtora conta apenas com a ajuda do filho Adriano Menegotto, 35 anos, que cuida das parreiras depois do expediente no trabalho e nos finais de semana. “Quanto menos serviço, melhor. É muito difícil encontrar pessoas para trabalhar aqui fora”, conta ela, que nesta safra perdeu 50% da produção em razão da chuva e geada.

O incentivo para cultivar variedades americanas veio da equipe técnica da Salton, para onde Ivoni entrega sua colheita. A vinícola tem uma produção anual de 1,8 milhão de litros de suco integral, dos quais 50 mil litros orgânicos. O volume, que chega no mercado em meados de fevereiro, se esgota rapidamente. “Quando chega na metade do ano, não temos quase nada para vender”, destaca Daniel Salton, presidente da Salton, que tem nos sucos uma fatia ainda pequena do faturamento, apenas 4,2%, devido à estratégia de priorizar os espumantes.

  A maior facilidade de produção, aliada à boa produtividade das videiras, é o que deverá continuar estimulando produtores a migrarem de uvas viníferas tintas para o cultivo de híbridas na Serra, segundo o coordenador da Comissão Interestadual da Uva, Denis Debiasi. “As variedades híbridas produzem melhor com menos uso de defensivos, ou seja, com custo mais baixo e menor necessidade de mão de obra”, ressalta.

Debiasi pondera que a realidade da Serra é bem diferente da região da Campanha (na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai), onde as condições climáticas e a mecanização da atividade são favoráveis à produção de uvas para vinhos finos.


Reforço no faturamento da vinícola

Com 380 famílias associadas, a Cooperativa Vinícola Garibaldi encontrou no mercado de sucos de uva um reforço no faturamento – que no passado totalizou R$ 110 milhões. O segmento já representa 50% dos negócios da vinícola gaúcha. Em 2015, foram vendidos cerca de 10 milhões de litros de sucos integrais, com São Paulo na liderança, seguido do Rio Grande do Sul.

“Nos últimos cinco anos, mais do que dobramos nossas vendas”, confirma Oscar Ló, presidente da cooperativa.

  Enquanto o mercado de sucos cresceu 35% no ano passado na vinícola Garibaldi, os espumantes tiveram um incremento de 23% e os vinhos de 7%. O bom desempenho dos sucos fez com que a cooperativa incentivasse investimento dos produtores em variedades híbridas, cultivadas em 70% dos 900 hectares dos associados.

“A produção de uvas americanas é bem maior na nossa região, o que facilita direcionarmos a produção para sucos”, explica Ló, acrescentando que essas videiras têm uma vida útil bem mais longa do que as viníferas.

Para atender ao crescimento das vendas, a vinícola Garibaldi investiu R$ 3 milhões no ano passado na ampliação da capacidade de processamento e de envase. Para 2016, estão previstos mais R$ 2 milhões em melhorias na linha de produção.


A vez dos sucos funcionais

Uma das empresas pioneiras a apostar na elaboração de sucos de uva integral e orgânico na serra gaúcha, a Casa Madeira ampliará o portfólio ao investir em bebidas funcionais neste ano. Com uma opção no mercado, com fibras, a vinícola lançará outros produtos enriquecidos com vitaminas e complementos alimentares. “Percebemos que essa é uma demanda muito forte dos consumidores”, conta o enólogo João Valduga, proprietário da Casa Madeira, de Bento Gonçalves.

Fundada no começo dos anos 1990, a empresa é um braço do grupo Famiglia Valduga, conhecida pela produção centenária de vinhos finos e espumantes no Vale dos Vinhedos. A entrada no segmento de sucos começou como uma brincadeira, lembra o empresário.

Na época, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Valduga fez um experimento com uma suqueira caseira e produziu os primeiros litros da bebida em Bento Gonçalves para familiares e amigos. “As cem garrafas iniciais se transformaram em mais de 4 milhões de garrafas por ano”, conta Valduga, ao referir-se à produção de 2015.

Para cada garrafa de suco integral produzida hoje, é processada 1,7 quilos de uva. A bebida não tem adição de água, açúcar ou conservante. No ano passado, a Casa Madeira faturou R$ 35 milhões ao processar 6,5 milhões de quilos de uvas híbridas americanas. Para 2016, a previsão é de um crescimento de 25% nas vendas, puxado especialmente pelos mercados gaúcho e paulista.


Quebra da safra de quase 50%

  A combinação desastrosa de granizo, geada e excesso de chuva no segundo semestre de 2015 atingiu em cheio a safra de uva gaúcha. Com a colheita recém iniciada no Rio Grande do Sul, mesmo sem números oficiais das perdas, estimativas indicam quebra de 30% a 50% da produção. A redução do volume refletirá diretamente nas vinícolas, que terão de buscar alternativas para suprir a diminuição de matéria-prima.

Acostumada a receber 16,5 milhões de quilos de uva em safras normais, a maior parte de viníferas brancas, a Salton está prevendo uma quebra ao redor de 40%. “Se recebermos 10 milhões de uvas soltaremos foguetes”, disse Daniel Salton, presidente da Salton, de Bento Gonçalves.

As variedades que mais sofreram com a instabilidade climática foram cabernet sauvignon e chardonnay. Segundo Salton, as variedades moscatel e merlot tiveram menos perdas. Para manter a produção anual de 13 milhões de litros de garrafas, a empresa irá recorrer a vinícolas parceiras que, mesmo com redução de safra, costumam ter excesso de produção.

“São vinícolas que mantêm um padrão de qualidade semelhante ao nosso, nos vinhos de entrada”, disse o executivo, ponderando que os produtos de maior valor agregado inevitavelmente terão suas produções reduzidas neste ano.

A estratégia será usada pela Salton para manter o mesmo volume de vendas de 2015, quando a empresa aumentou em 2% os negócios. O faturamento chegou a R$ 338 milhões.


Fonte: Gazeta do Povo (http://vinhos.me/0Tyn1)
Por Agência RBS. Foto: Divulgação


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