O maior trambiqueiro do mundo dos vinhos raros

Já li histórias sobre falsificadores de dinheiro e obras de arte, mas um documentário no Netflix, “Sour Grapes”, me apresentou a um mundo desconhecido: o dos falsificadores de vinhos.

  Dirigido por Reuben Atlas e Jerry Rothwell, o filme conta a história do maior falsificador de vinhos de que se tem notícia: Rudy Kurniawan, um misterioso asiático (Indonésio? Chinês? Ninguém sabe) que inundou o mercado internacional com cerca de 10 mil garrafas falsas de vinhos raros e faturou 35 milhões de dólares com o trambique.

 

 

Foi um golpe muito bem planejado. No início dos anos 2000, Kurniawan apareceu do nada em leilões de vinhos nos Estados Unidos e começou a arrematar garrafas por valores muito mais altos do que os de mercado. Dizia-se que ele era especialista em vinhos e herdeiro de uma família bilionária da Indonésia, mas o que Rudy realmente estava fazendo era inflacionar o mercado para vender sua “coleção” por valores exorbitantes.

Mais interessante que o caso policial é a descrição dos personagens que habitam esse mundo de vinhos caros. Foi um mercado que cresceu com o tsunami de dinheiro que chegou a Wall Street na virada dos anos 1990 para 2000. Subitamente, havia muita gente com muita grana e sem ter onde gastar. E mais importante: com pouco conhecimento sobre vinhos, portanto, facilmente enganáveis.

Um dos entrevistados é o multibilionário Bill Koch, dono de uma mansão breguíssima em Palm Beach, na Flórida (onde mais?) e de uma coleção de 43 mil garrafas de vinhos raros, incluindo quatro engarrafados no fim do século 18 e que supostamente pertenceram a Thomas Jefferson. Claro que eram todas falsas.

O filme entrevista produtores de cinema, banqueiros e investidores de Wall Street, que aparecem tomando vinhos de 20 mil dólares em limusines e dizendo frases como “Se você não tem dinheiro para tomar champanhe da safra 1996, é melhor ficar na cerveja mesmo”. Todos eles passaram anos elogiando vinhos que haviam sido falsificados pelo amigo Rudy Kurniawan.

  No outro extremo, há o produtor francês Laurent Ponsot, dono da famosa vinícola Domaine Ponsot, da Borgonha, um homem apaixonado por vinhos e revoltado com a inflação de preços causada pelos leilões. Foi Ponsot que descobriu o trambique de Kurniawan, ao ler, no catálogo de um leilão, que ele oferecia vinhos de safras que não existiram.

“Sour Grapes” é um ótimo filme policial-detetivesco sobre um mundo que poucos de nós conhecem. E não, você não precisa saber se um vinho tem retrogosto de bosta de vaca para apreciar o documentário.

  Vino Emporium: Ainda com curiosidade? Leia também: A falsificação de vinhos vai parar nos tribunais

Fonte: Blog do Barcinski (http://vinho.one/hwABf)
Por André Barcinski. Foto: Sour Grapes/Reprodução


Comentários