Vinícola Ouro Verde, da Miolo, localizada no município de Casa Nova, na Bahia
Vinícola Ouro Verde, da Miolo, localizada no município de Casa Nova, na Bahia

Contrariando a ideia de que a produção de vinho é restrita a terras de clima temperado, Vale do rio São Francisco é, desde os anos 1980, uma das principais zonas produtoras de vinho do Brasil.

  No meio do Semiárido nordestino, em condições que, para muitos, podem parecer inviáveis, quatro vinícolas produzem vinhos – especialmente espumantes – fruto do vale do rio São Francisco, entre a Bahia e Pernambuco. Por lá, as videiras europeias foram introduzidas nos anos 1960 para o cultivo de uvas de mesa. Depois de 20 anos, foi iniciado o plantio de uvas para vinhos finos. Originária da Ásia, a videira tem um comportamento importante para a região: facilidade de adaptação a diferentes condições de clima e solo, e intolerância à alta umidade.

Com as variáveis específicas, cada região vinicultora no mundo tem uma produção diferenciada por mais que sejam usadas as mesmas espécies de plantas. “As videiras se adaptaram muito bem (ao Vale do rio São Francisco), produzindo uvas e vinhos com tipicidades distintas”, destaca Giuliano Pereira, pesquisador do Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, que participa da produção através de pesquisas. No vale, são produzidos vinhos tropicais característicos também de regiões como Índia, Tailândia e Myanmar, no hemisfério Norte, e Venezuela no hemisfério Sul.

“As características de clima e solos representam efeitos muito importantes sobre as uvas e os vinhos. Além destes dois fatores, o terceiro é o homem, que vai escolher onde plantar, como plantar, quanto irrigar, como elaborar vinhos etc”, explica o pesquisador. Com temperaturas elevadas (média anual de 26 °C), alto índice de radiação solar (cerca de três mil horas de sol por ano) e baixa pluviosidade – que é suprida pela irrigação –, cada planta produz duas safras por ano, ao contrário das regiões temperadas, em que só há uma.


Fatores Ambientais

Os fatores ambientais contribuem, de acordo com Giuliano, para que as uvas do vale tenham “elevados teores de açúcar, baixa acidez, e aromas característicos”. Como resultado, resume Renato Brasil, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers no Ceará (ABS-CE), as uvas da região amadurecem mais rapidamente. “Isso faz com que o vinho seja menos ácido e mais alcoólico”. Anualmente, segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), são produzidos mais de três milhões de litros de vinhos nas quatro vinícolas, entre espumantes, tintos e brancos.

Para o sommelier José Figueiredo, a experiência de 25 anos no Vale do rio São Francisco é uma forma de quebrar um paradigma contra a produção em áreas tropicais. “É a quebra do preconceito de diferentes formadores de opinião dos grandes centros que ainda não conseguem perceber que é possível fazer vinhos magnânimos mesmo tendo safras sucessivas de uma videira. Para nós, essa é mais que uma virtude única”. Segundo ele, isso é decorrência do desconhecimento sobre a região, que, agora, tem iniciado o investimento no turismo de vinho.


Fonte: O Povo (http://vinhos.me/EYU41)
Por Mariana Freire. Foto: UOL Economia/Divulgação


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