Vinícolas optam por terceirizar a produção

Marcas do Rio Grande do Sul focam o investimento inicial em matéria-prima e repassam os processos de vinificação

No mundo das cervejarias, elas são conhecidas como "ciganas". São aquelas marcas que não possuem infraestrutura própria de produção e optam por alugar o maquinário e a mão de obra de terceiros para se viabilizar.

  Agora são as vinícolas que adotam o modelo em questão, com o objetivo de diminuir o investimento inicial, diluir os custos fixos - mão de obra e energia, entre outros - e obter know-how junto aos parceiros. Dessa maneira, ainda ganham tempo para consolidar seu nome em um mercado de retorno em longo prazo. Por outro lado, quem fornece seu espaço para elaboração de outros vinhos e espumantes ocupa sua capacidade ociosa e rentabiliza seu maquinário.

A Dunamis, por exemplo, iniciou o plantio dos seus vinhedos ainda em 2001. A marca chegaria ao mercado apenas 10 anos depois, no início de 2011. A ideia, segundo o gestor da vinícola, Celso Gromowski, era montar uma "filosofia de negócios contemporânea". Nesse sentido, o investimento em matéria-prima foi priorizado. As áreas destinadas ao plantio da fruta, em Dom Pedrito e Coriporã, foram cuidadosamente escolhida por georreferenciamento. As principais variedades são cabernet franc, merlot, tannat, sauvignon blanc, chardonnay e pinnot noir.

Em segundo lugar, após a obtenção de excelência em matéria-prima, o objetivo foi abrir mercados para os vinhos e espumantes. Além do Rio Grande do Sul, as garrafas da Dunamis podem ser encontradas em sete estados do País. Por isso e por entender que o retorno do setor vinícola se dá em longo prazo, a marca optou pela terceirização do processo de vinificação. Buscou como uma das parceiras a Geisse, referência na produção de espumantes. As uvas saem de Dom Pedrito e Cotiporã e são processadas, respectivamente, na Cordilheira de Santana, em Santana do Livramento, e em Pinto Bandeira.

A bodega Czarnobay, por sua vez, viu a terceirização quase como uma obrigatoriedade, uma vez que a aquisição dos equipamentos para elaboração de espumante pelo método tradicional - o charmat - não compensaria no caso de uma produção em pequena escala. "Não tínhamos como não terceirizar. Não faria sentido comprar uma autoclave de R$ 100 mil para fabricar 6 mil garrafas por ano. Por isso, procuramos alguém que já tivesse o maquinário", explica o enólogo Antônio Czarnobay.

Logo, a cantina, situada em Encruzilhada do Sul, teve a fabricação nas vinícolas Garibaldi e Perini, em Farroupilha, para suas variedades de vinhos finos merlot e espumantes.

Dessa maneira, não é preciso fazer o investimento inicial em maquinário, além de ser necessário arcar com custos fixos em mão de obra e outras despesas. "Começar uma vinícola completa do zero hoje teria um custo muito maior do que pagamos pela terceirização, além do fato de uma estrutura própria exigir uma produção maior para cobrir os consequentes custos", explica Gromowski.

A parceria, segundo o gestor, também agrega valor ao produto. "Esse sistema nos permite absorver know-how dos produtores parceiros e, ao mesmo tempo, não significa perda de autenticidade, pois acompanhamos todo o processo produtivo com nossos enólogos", completa.

A Dunamis vem, então, crescendo de maneira sustentável. Conforme aumenta a demanda, cresce também a produção. Ou seja, não foi preciso iniciar com um volume produtivo elevado. Em 2014, o volume e o faturamento cresceram 30%. Atualmente, são 70 mil litros anuais, cerca de 65% em espumantes e o restante, em vinhos. "Temos projeto para montar nossa estrutura própria de vinificação, mas não adiantaria de nada sem uma boa tecnologia empregada na matéria-prima e mercados abertos. Com a terceirização, ganhamos tempo para consolidar a marca", afirma Gromowski. A intenção da empresa é ultrapassar em 20% seu ponto de equilíbrio, o que deve acontecer até 2018, para fazer a própria indústria de processamento.

Parceiros utilizam a capacidade ociosa do maquinário para diluir custos e criar fonte de receita

Em 1979, o chileno Mario Geisse, impressionado com o potencial do solo da região de Pinto Bandeira, na Serra gaúcha, para produzir espumantes, fundou a vinícola Geisse. Em busca das melhores condições, ele demarcou uma área de 23 hectares no Rio Grande do Sul. Estabeleceu, então, que toda a sua produção de espumantes, elaborada pelo método tradicional, teria origem nas uvas plantadas dentro do perímetro já definido. O foco na qualidade e nas variedades de uvas pinot noir e chardonnay, por outro lado, limitava a expansão em volume. "A vinícola nasceu, de certa maneira, podada. Podemos produzir, no máximo, 220 mil garrafas por ano", conta Daniel Geisse, filho de Mario e atual diretor da empresa.

Ao mesmo tempo, a vinícola foi investindo em tecnologia para aprimoramento do processo de vinificação e contratação de especialistas do setor. Determinados equipamentos, entretanto, são idealizados para volumes elevados, tendo em vista o alto custo de aquisição. Entretanto, a produção reduzida da Geisse não fundamentava o capital aplicado no maquinário. "Para justificar os investimentos e valendo-se do expertise dos nossos profissionais, decidimos fornecer o serviço de terceirização para outras marcas", explica Geisse. Hoje, a estrutura conta, por exemplo, com sete pessoas no corpo de degustação e linha fabril de ponta.

Enquanto a capacidade das instalações gira em torno de 600 mil garrafas por ano, a extensão dos vinhedos e as técnicas utilizadas pela Geisse permitem uma produção própria de, no máximo, 220 mil garrafas. Ou seja, a empresa tem uma demanda reprimida de quase três vezes o que produz. A capacidade ociosa é ocupada por, em média, sete outras marcas, diluindo suas despesas. O custo para os interessados varia conforme as etapas a serem realizadas no local. É possível, por exemplo, fazer apenas a extração e estabilização do mosto, ou a vinificação do vinho base, passando pela segunda fermentação e engarrafamento até o retorno das garrafas para retirada das leveduras, conforme o desejo dos clientes.

De acordo com Geisse, a terceirização é o que viabiliza, hoje, a existência de muitas vinícolas, principalmente aquelas que estão iniciando no mercado. Dessa maneira, não é preciso carregar os custos fixos de implantação e manutenção da indústria, como mão de obra e equipamentos. "Basta ter um vinhedo e uma área comercial. É um setor de retorno financeiro em longo prazo. Quem terceiriza, por outro lado, tem retorno no mesmo ano. Para nós, otimiza a utilização da estrutura e dilui os custos. Nossa opção era crescer em volume próprio ou terceirizar; optamos pelo segundo", completa.


Fonte: jornal do Comércio (http://vinhos.me/1o5ZH)
Por Luiz Eduardo Kochhann. Foto: Divulgação


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